Gramática Tradicional x Lingüística - I



(*) Sílvio Vieira de Andrade Filho

 


Através das palavras e dos enunciados numerados da lista exemplificativa no final deste artigo, pretendemos fazer uma reflexão envolvendo os estudos antigos e recentes sobre a língua portuguesa.


A palavra grifada de (1) é chamada pela gramática tradicional de artigo definido. Por quê? Seus seguidores afirmam que a palavra grifada é capaz de definir o nome ao lado. Acontece que o ouvinte pode fazer a pergunta contida em (2), comprometendo seriamente a explicação tradicional. Mesmo que a explicação tradicional estivesse perfeita, teríamos outro problema. Se usarmos o raciocínio contido em (3), somos forçados a reconhecer a imprecisão da terminologia tradicionalista. Além disto, a observação de (4) leva-nos à conclusão de que a nomenclatura tradicional em foco serve para o nome de (1) e não para a palavra grifada de (1).


A gramática tradicional (= GT) chama o grifo de (5) de objeto indireto. A primeira explicação da GT é esta: o grifo é o complemento do verbo que tem preposição. Notamos uma distância enorme entre a nomenclatura tradicional e o que esta quer dizer. A nomenclatura que vai direto ao assunto poderia ser esta: complemento verbal em conformidade com o que a própria GT chama de complemento nominal. A segunda explicação tradicional é esta: o nome da expressão grifada é o alvo da ação verbal de maneira indireta. Mas como, se o candidato fala diretamente?


Em (6), notamos nova inadequação terminológica. Aqui, para usarmos a própria nomenclatura da GT, temos um caso de sujeito inexistente. Esta, porém, não usa para (6) tal terminologia, pois não leva em consideração o lado semântico dos enunciados. Daí as falhas terminológicas em todos os enunciados até agora vistos.


A GT, adotando o critério do certo e errado, condena enunciados como (7), argumentando que não se pode iniciar enunciados com palavras como a grifada. Negar enunciados como o (7) é fugir da realidade, é negar o óbvio. Para a Lingüística, que não adota tal critério, o que interessa para a análise é o que se ouve realmente. Assim, (7) representa a realidade, ao passo que (8) e (9) são meras invenções, meras fugas dos gramáticos tradicionais. Se baseássemos nossa tese de Doutorado no critério falso da GT, jamais iríamos realizar o estudo da "cupópia", a fala do Cafundó que tem enunciados como (10) onde não existe concordância.


O enunciado (11) tem por estrutura mental (12). O ato da fala (11) ocorre graças a uma operação mental (12) que está na cabeça tanto do falante como na do ouvinte. Tem que estar na cabeça dos dois para haver comunicação. Daí a Lingüística Gerativo-Transformacional trabalhar em sua análise com duas estruturas: uma mental e outra superficial. Daí a Lingüística estar ligada à Psicologia (Psicolingüística). Daí a Lingüística fazer parte das ciências humanas.
É uma ciência apoiando-se em outra ciência e não como faz a GT que, ao descrever o registro alto, se apóia em exemplos de escritores e poetas. A GT quer fazer ciência e mistura ciência com arte. Ciência e arte são impossíveis de misturar do mesmo jeito que o óleo e a água. Não temos nada contra os literatos. Assim como alguém pode pegar um pedaço de madeira e fazer uma escultura, o literato pega palavras e faz uma obra literária. Ele então está fazendo arte. Está trabalhando a palavra de modo artístico. E muitos trabalham muito bem. Somos contra a GT que mistura ciência com arte. Somos contra a GT que cita um escritor que usa (8) e que condena (7). Somos contra a GT que desconhece a fala oral (7).


E o que dizer da Ortografia? Trata-se de mera convenção entre os homens. Em português (13) tem "h", mas a mesma palavra em italiano não tem (14). Sendo convenção, uma língua usa o "h" e outra não. Sendo convenção, as formas podem sofrer alterações periódicas. Sempre estamos ouvindo o barulho de que alguma coisa vai mudar do mesmo jeito que já mudou no passado. Assim, a palavra de (15) já foi outrora escrita do jeito que está em (16). Por ser convenção, a ortografia nada tem a ver com os estudos lingüísticos. A nossa ortografia nem sempre é coerente. Ela manda escrever (17) com "h", grafema sem nenhum valor fonético, mas manda que (18) seja escrito sem este. Isto ocorre porque estamos diante de mera convenção. As regras ortográficas não são regras naturais, duradouras, imutáveis, brotadas da própria estrutura da língua e sim regras artificiais cheias de exceções inventadas pelo homem que, desejoso de estardalhaços periódicos, quer novamente mudá-las, chegando até a piorá-las com tantas incoerências. No referente à acentuação gráfica, devemos lembrar que a língua inglesa não usa acentos.

 

Os estudos lingüísticos buscam a verdade através de idéias claras e lógicas. A nossa vida mental só funciona bem com coisas claras e lógicas. Por esta razão, os estudos lingüísticos não cometem as incoerências da GT que a deixam difícil de entender e anti-científica. Se predominassem no Brasil, os estudos lingüísticos facilitariam os concursos públicos e os vestibulares.


Como podemos perceber, os estudos da linguagem evoluíram como toda ciência. Será que há interesses econômicos que, de modo consciente, impedem a evolução científica, seguindo a filosofia contida em (19) e, desta maneira, atrapalhando a vida dos que estão envolvidos na língua portuguesa ativa ou passivamente através da perpetuação do antigo que não requer nenhum esforço para ter continuidade?


Alguns professores afirmam que seguem rigorosamente o conteúdo tradicional dos livros didáticos. O que está no livro tem para eles força de lei. Por outro lado, elementos ligados ao setor editorial alegam que tal conteúdo representa fielmente o desejo dos professores e tem a aprovação dos órgãos educacionais. Alegam também que uma suposta obra cientificamente atualizada sem a devida aprovação dos referidos órgãos, com certeza, só traria prejuízos. Estamos diante de um círculo vicioso muito difícil de ser rompido.


Do ponto de vista estritamente pedagógico, se o objetivo é o desenvolvimento da capacidade expressiva por parte dos discentes, nenhum modelo teórico de descrição lingüística é válido mesmo que moderno.


Lista de palavras e enunciados


(1) Pegue o caderno para mim
(2) Que caderno?
(3) Quem dirige é diretor, quem compra é comprador, quem consome é consumidor. Portanto, quem define é definidor.
(4) A blusa foi comprada pelo comprador.
Portanto, o nome é definido pelo definidor.
(5) O candidato fala diretamente ao povo
(6) Ninguém foi à festa
(7) Me dá um dinheiro aí
(8) Dá-me um dinheiro aí
(9) Dir-te-ei a verdade
(10) As anguta cuendô
As mulher chegou (tradução literal)
(11) Lembranças aos seus
(12) Dê você lembranças aos seus pais
(13) homem
(14) "uomo" = homem
(15) farmácia
(16) pharmacia
(17) Bahia
(18) baiano
(19) Para que vamos simplificar, se podemos complicar?
Para que melhorar, se assim está ótimo para nós?

(*) Sílvio Vieira de Andrade Filho (vieira.sor@terra.com.br) é lingüista, historiador e autor da dissertação de Mestrado "Definido? Uma Proposta Textual para a Descrição do O em Português" e dos livros "Um Estudo Sociolingüístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores", Secretaria da Educação e Cultura de Sorocaba, 2000 (tese de Doutorado na USP com a segunda edição em 2009), "Guareí" (2004) e "Itapetininga" (2006). Mais informações no site www.cafundo.site.br.com.


Nota - Este artigo foi publicado pela primeira vez em 31.08.1996 no jornal Nossa Terra de Itapetininga.


 

 

 

 

Gramática Tradicional x Lingüística - II



(*) Sílvio Vieira de Andrade Filho

 

 

Através das palavras e dos enunciados numerados da lista exemplificativa no final deste artigo, pretendemos fazer uma reflexão envolvendo os estudos antigos e recentes sobre a língua portuguesa.


Por que a Lingüística faz parte das ciências humanas? As ciências humanas têm por objetivo compreender melhor o ser humano. Assim como o ato de aprender a andar de uma criança é um comportamento humano, a fala é também um comportamento humano estudado pela Lingüística que tem um ramo especial só para estudar este comportamento humano chamado Psicolingüística. A Lingüística, portanto, faz parte das ciências humanas e não está, como a Gramática Tradicional (= GT), ligada à Arte, à Literatura. Em algumas faculdades brasileiras, o curso de Lingüística já está separado do curso de Letras.


Por que os exemplos literários não servem para a Lingüística? Como artistas da palavra, os escritores e poetas praticam certas liberdades que fazem parte de sua criação artística. Dentre estas, está a geração de enunciados artificiais. Um exemplo de artificialismo, de falta de espontaneidade é a chamada topologia pronominal pela GT (1). Não é com enunciados artificiais dos escritores que vamos entender melhor o ser humano. Os escritores geram textos escritos. Se forem ao açougue e pedirem ao açougueiro o que desejam através de enunciados artificiais, como costumam fazer em seus escritos, eles não serão entendidos e vão causar muita estranheza ao açougueiro. Eles vão ter que usar a oralidade para serem bem sucedidos em sua comunicação. A característica principal da oralidade é a espontaneidade. Se não considerássemos a oralidade, não conseguiríamos elaborar a nossa tese de Doutorado sobre a "cupópia", a fala do Cafundó que tem enunciados como (2) sem concordância verbal.


Qual a conseqüência da ligação da GT com os escritores? A GT formula regras de acordo com os enunciados destes. Como conseqüência, as regras são também artificiais como são os enunciados destes. Assim, as regras são anti-científicas. Ao contrário, a Lingüística formula regras partindo do natural, do espontâneo, do real. A Lingüística vê naturalmente a ordem das palavras em (3), mas rejeita a ordem de (1) e (4).


Por que muitas GT vêm acompanhadas dos rótulos contidos em (5)? São rótulos comerciais que só podem significar que estas foram editadas recentemente. O conteúdo destas, porém, está ultrapassado cientificamente.


Por que nenhuma teoria, mesmo que renovada, é válida para a melhoria da capacidade expressiva do aluno? Não é através da memorização de uma nomenclatura (aliás, bastante imprecisa na GT) que o aluno vai atingir tal objetivo. Não é através da memorização dos vários nomes das peças de um motor de um carro que uma pessoa vai atingir o seu objetivo de aprender a dirigi-lo.


Lista de palavras e enunciados


(1) O jogo realizar-se-á às 16h
(2) Os tata cupopiô
Os home falou (tradução literal)
(3) O menino.....
(4) Menino o.....
(5) nova, moderna

(*) Sílvio Vieira de Andrade Filho (vieira.sor@terra.com.br) é lingüista, historiador e autor da dissertação de Mestrado "Definido? Uma Proposta Textual para a Descrição do O em Português" e dos livros "Um Estudo Sociolingüístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores", Secretaria da Educação e Cultura de Sorocaba, 2000 (tese de Doutorado na USP com a segunda edição em 2009), "Guareí" (2004) e "Itapetininga" (2006). Mais informações no site www.cafundo.site.br.com.


Nota - Este artigo foi publicado pela primeira vez em 21.09.1996 no jornal Nossa Terra de Itapetininga.

 

 

 

 

 

Gramática Tradicional x Lingüística - III

 

(*) Sílvio Vieira de Andrade Filho

 


Através dos enunciados em língua portuguesa numerados na lista exemplificativa no final deste artigo, pretendo fazer um estudo comparativo entre a Gramática Tradicional (= GT) e a Gramática Gerativo-Transformacional (= GGT).

A GT tem este nome porque vem da tradição gramatical dos gregos que foi depois assimilada pelos romanos que a propagaram para a Europa Ocidental. Ao contrário da GGT, a GT valoriza a língua escrita e as noções de certo e errado, tem uma nomenclatura que, na maioria das vezes, não diz nada do fato descrito e não consegue fazer ciência, pois está mesclada com arte através de exemplos literários.

 

Os estudos lingüísticos de modo científico surgiram somente no século 19 com o Estruturalismo, mas foi com Noam Chomsky a partir de 1957 que tomaram grande impulso, ganhando muitos seguidores no mundo com a sua GGT de caráter universal. Ele afirma que toda criança de qualquer parte do mundo já nasce com a faculdade da linguagem. Aos 18 meses, uma região de seu cérebro especializada em linguagem já está com prontidão para ela começar a desenvolver a linguagem que faz parte de seu processo cognitivo. Basta que ela esteja exposta à língua falada de sua comunidade para começar a aprendê-la. Isto quer dizer que ela nem precisa ir à escola para aprender a falar a língua de seu meio. Assim, a criança já nasce com os constituintes frasais de todas as línguas do mundo. Ela então vai escolher só aqueles que servem para a língua que ela está aprendendo e que são poucos, fato que facilita a aprendizagem. Com estes constituintes finitos, a criança é capaz de gerar ou entender infinitas frases inclusive as que nunca foram geradas antes. Portanto, estes constituintes são naturais, inatos e anteriores às regras artificiais da GT. Assim, com poucos anos, a criança, se for brasileira, já é capaz de saber intuitivamente que (10) é agramatical, isto é, que não está de acordo com os constituintes inatos de sua língua. Por outro lado, ela sabe que (11) é gramatical. Usuária de sua língua oral há algum tempo, ela então vai à escola e aí algo terrível a espera: a GT que vai deixá-la confusa por não operar com lógica e nem com constituintes naturais com as quais ela já estava acostumada. A palavra gerativo provém dos fatos expostos anteriormente e a palavra transformacional diz respeito às transformações ocorridas durante a passagem da estrutura profunda para a superficial por ocasião da descrição lingüística própria da GGT que é uma gramática universal.

A GT afirma que o enunciado da placa comercial de (1) tem o sentido de (2) e, pelo sentido de (2), chega à conclusão de que o grifo de (1) é “partícula apassivadora”. É bastante ilógico analisar um componente de um enunciado através de outro como faz a GT. A análise de (1) deve ser feita em (1) mesmo. Para a GGT, a última palavra de (1) é mero complemento da primeira e o grifo significa alguém. A confusão da GT reside no fato de (1) ter complemento, o que lhe dá a oportunidade de fazer equivocadamente a referida afirmação. E quando o enunciado não tem complemento, caso de (3)? Para a GGT, a análise de (3) é a mesma de (1). Na análise de (3), a GGT concorda com a GT que, neste caso, não se equivoca. Portanto, a GT tem duas análises diferentes para enunciados que são iguais para a GGT. A GGT é totalmente lógica e tem a tendência de reduzir os fatos lingüísticos, diferentemente da GT que possui enorme desejo classificatório, o que lhe confere falsa erudição, caindo sempre no ditado contido em (12). Baseando-se no sentido de (2), a GT afirma que (1) está errado e que o certo é (4). Já a GGT não trabalha com os conceitos de certo e errado e sim com os fatos tais como se apresentam na realidade oral. Apesar das imposições da GT, os usuários da língua portuguesa vão continuar com (1) que tem muito mais naturalidade e lógica que (4).

O enunciado (8) é considerado duplamente errado pela GT que acha que o falante deve usar (9). As razões apresentadas já são aquelas velhas conhecidas. Numa festa junina, o falante que mora na zona rural fala espontaneamente (8) no seu próprio registro. Os moradores do referido local ouvem e não estranham (8) por serem dotados do mesmo registro. Neste contexto, se um visitante da referida festa falar (9), poderá ser criticado por um falante de (8). Portanto, a crítica ao falante de (9) pode partir de usuários do registro contido em (8). O conflito de registros é uma realidade. A palavra grifada iniciando o enunciado como está em (8) é muito freqüente, mesmo que não seja do agrado da GT. Devemos ressaltar também que, em (8), o plural está marcado só no número. Já em (9), o plural está nas duas últimas palavras, o que causa redundância.

As mesmas imposições da GT acompanhadas daquela nomenclatura já comentada estão em (5), (6) e (7). Se a linguagem nasceu para a simples comunicação entre as pessoas, como que a GT pode ter a ousadia de impor-lhes tais enunciados?

Lista exemplificativa de enunciados

(1) Vende-se casas
(2) Casas são vendidas
(3) Dançou-se a noite toda
(4) Vendem-se casas
(5) Prefiro arroz ao feijão
(6) Obedeço aos pais
(7) Assisto ao jogo
(8) Me passe três quentão
(9) Passe-me três quentões
(10) Foi João Tóquio a
(11) João foi a Tóquio
(12) Para que vamos simplificar, se podemos complicar?

(*) Sílvio Vieira de Andrade Filho (vieira.sor@terra.com.br) é lingüista, historiador e autor da dissertação de Mestrado "Definido? Uma Proposta Textual para a Descrição do O em Português" e dos livros "Um Estudo Sociolingüístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores", Secretaria da Educação e Cultura de Sorocaba, 2000 (tese de Doutorado na USP com a segunda edição em 2009), "Guareí" (2004) e "Itapetininga" (2006). Mais informações no site www.cafundo.site.br.com.

 

 

 

 

 

Gramática Tradicional x Lingüística - IV

 

Uma proposta lingüística para o estudo do "O" da língua portuguesa



(*) Sílvio Vieira de Andrade Filho

 

 

Através dos enunciados numerados na lista exemplificativa no final deste artigo, pretendo fazer um estudo comparativo a respeito do "o" da língua portuguesa na visão da Gramática Tradicional (= GT), da Gramática Gerativo-Transformacional (= GGT) e da Lingüística Textual (= LT).

Ramo da GGT, a Lingüística Textual (= LT) explica que (3) é dito sinteticamente pelo falante porque ele acha que o ouvinte já tem conhecimento do menino que ele está mencionando. Caso o ouvinte possua alguma dúvida ou não tenha conhecimento do menino de (3), este vai dirigir-se ao falante de (3), buscando esclarecimentos através de (4). Daí, o falante de (3) vai esclarecer o ouvinte através de (2). Assim, podemos concluir que (3) resulta de uma redução de (2).
Por outro lado, é impossível haver (2) com a presença de "o" diante do nome "menino" sem a existência de (1) com o nome "menino" sendo antecedido por "um".

 

Portanto, o grifo de (1) serve para o falante apresentar o nome "menino" ao ouvinte ou ao leitor. Em (2), o grifo serve para indicar que o nome "menino" já foi mencionado antes em (1) e que agora deve fazer parte do conhecimento do ouvinte. O nome "menino" de (2) é o mesmo nome "menino" de (1). Isto revela que (2) depende de (1) e que tudo faz parte de um texto. A recíproca não é verdadeira.

Vejamos agora o mesmo caso anterior através do exemplo seguinte. Dois colegas usuários de um ônibus costumam encontrar-se no ponto numa determinada hora. Preocupado, um deles (falante) pergunta (6) ao colega (ouvinte). O falante sabe da existência do ônibus e de seu horário e sabe que o ouvinte também é conhecedor de tudo e que tudo está no repertório do ouvinte, razão pela qual dispensa (5) que deve vir obrigatoriamente antes de (6).

 

Outro caso que podemos estudar está em (8). A GGT aponta como sua estrutura profunda (7) que, depois da transformação de apagamento do nome "livro", deu origem a (8). O "o" de (8) é o mesmo "o" de (7).

A GT chama "o" de artigo definido porque este, segundo os seus adeptos, define o nome ao lado como em (2). Se usarmos o mesmo raciocínio de (10), vemos que a terminologia da GT carece de lógica, pois o referido artigo deveria chamar-se artigo definidor. O nome ao seu lado é que fica definido pelo artigo ! A impropriedade terminológica é um dos graves defeitos da GT considerada anticientífica.

A GT chama "o" de artigo definido como em (2) e de pronome demonstrativo como em (8). No caso de (8), houve o apagamento do nome "livro" e o deslocamento do "o". Na verdade, o "o" de (8) é o mesmo "o" de (2), (7) e (9). Assim, deve haver só um nome técnico para todos estes casos como ocorre na Lingüística que tem tendência simplificadora. A GT tem o grave defeito de colocar vários nomes para um único fenômeno. A GT não é capaz de fazer generalizações, não sendo, portanto, científica. A GT não tem lógica, fato que muito atrapalha o entendimento das pessoas.

O artigo definido é uma espécie de "ovelha desgarrada" da GT e deve retornar, segundo a Lingüística, à classe dos mostrativos conforme (11). A origem do "o" é o latim vulgar "illu", conforme (12). Até os dias atuais, há muitos enunciados onde "aquele" é empregado no lugar de "o", conforme (13).

Mais detalhes estão na minha dissertação de Mestrado pela PUC de Campinas intitulada "Definido? Uma Proposta Textual para a Descrição do O em Português".

 

Lista exemplificativa

 

(1) Vimos um menino sábado

(2) O menino, que vimos sábado, voltou

(3) O menino voltou

(4) Que menino?

(5) O ônibus, que pegamos às 14:00 h, passou?

(6) O ônibus passou?

(7) Comprei um livro, mas ainda não li o livro

(8) Comprei um livro, mas ainda não o li

(9) O livro custou caro

(10) Quem vende é vendedor, quem compra é comprador, quem dirige é diretor, quem vence é vencedor...

(11) Este, esse, aquele, o e suas variantes

(12) illu = aquele

(13) Em Cuba, existem os carros que são modernos, mas existem também aqueles carros considerados bem antigos

 

(*) Sílvio Vieira de Andrade Filho (vieira.sor@terra.com.br) é lingüista, historiador e autor da dissertação de Mestrado "Definido? Uma Proposta Textual para a Descrição do O em Português" e dos livros "Um Estudo Sociolingüístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores", Secretaria da Educação e Cultura de Sorocaba, 2000 (tese de Doutorado na USP com a segunda edição em 2009), "Guareí" (2004), "Itapetininga" (2006) e "Notas e Documentos Complementares" (2015). Mais informações no site www.cafundo.site.br.com.

 

 

 

 

 

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